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Crítica: João, o Maestro



João! Um nome simples, comum, que compõe a identidade de tantos brasileiros, assim como José, Maria, Francisco... O filme poderia facilmente ter seu título alterado para "João, o brasileiro", pois este carrega na alma uma característica nata desta nação, que se tornou uma frase cliché, mas que não diz nada senão a nossa realidade: "um brasileiro não desiste nunca". Por mais que a vida insista em nos dar uma rasteira em todos os sentidos, a gente se levanta, se reinventa, respira fundo e vai à luta. Hoje o cidadão brasileiro pode carregar no seu sobrenome a palavra superação. E aqui temos um exemplo vivo desta característica.

Mas embora esse subtítulo inventado por mim talvez fosse até pretensiosamente adequado, não seria tão ideal quanto o que foi formalmente batizado. "O Maestro". É mais do que óbvio aqui que esta palavra se trata de um substantivo que se refere à sua profissão. Mas por que não associar o termo à sua vida? Maestro em italiano significa Mestre. E é isso que João Carlos Martins se tornou após todos os obstáculos que precisou transpor durante sua vida até hoje. Com obstinação, paixão, e até mesmo compulsão, conseguir romper todas as barreiras físicas e psicológicas que o afastavam de seu dom. E conseguiu com perfeição. Portanto, nada melhor do que lhe dar um adjetivo: "mestre". Uma referência. Um vencedor. Nada mais correto do que expor essa dualidade no título: A simplicidade de um João contrapondo ao seu talento raro, e - por que não arriscar em dizer -  único.



Nascido em São Paulo, em 1940, João Carlos Martins começou a estudar piano aos oito anos de idade e iniciou a carreira profissional aos treze. Desde cedo, era considerado um prodígio no piano. Um talento nato, que aparecia de 100 em 100 anos (ou até mesmo muito mais do que isso). Estreou no Carnegie Hall, em Nova Iorque, aos 20 anos. O brasileiro foi um dos poucos músicos a gravar a obra completa de Bach. Mas no auge do sucesso e reconhecimento, acidentes lhe causaram problemas que lhe "obrigariam" a abandonar sua profissão. Mas lembram do lema do brasileiro? Por mais impossível que possa parecer, João Carlos nunca desistiu de sua paixão, de seu objetivo de vida. Após precisar encerrar oficialmente sua carreira de pianista devido às suas limitações (o que não lhe impediu de tocar de vez em quando), passou a se dedicar aos estudos de regência a partir de 2004. Hoje é regente da Orquestra Bachiana Filarmônica do SESI - SP.

Hoje com 77 anos, o maestro passou por mais de 20 cirurgias em toda sua vida. Sofreu com uma atrofia nos dedos, tratou um tumor na mão direita e uma embolia pulmonar em 2017. Também foi golpeado em sua cabeça durante um assalto, o que originou um problema no cérebro e dificuldade de movimentação na mão direita. O filme conta detalhes pouco conhecidos da vida do maestro como o primeiro concerto internacional, a relação com as mulheres e o perfeccionismo em relação à música são retratados no filme.

O próprio maestro ajudou no desenvolvimento do filme, acompanhando o roteiro e contribuindo com a trilha sonora. Antes da exibição de estreia durante o Festival de Cinema de Gramado, João Carlos disse ao público presente: “Receber uma homenagem como essa, ainda vivo, é uma das maiores emoções da vida. Eu confiei plenamente no Mauro para contar a minha história. Só compareci ao set para acompanhar as cenas que envolviam a música”. Também citou: "Assisti ao filme três vezes, e nas três vezes acabei chorando. Percebi tudo que aconteceu na minha vida. Na parte da música, 100% é da minha realidade. Já a dramaturgia foi baseada na minha vida, com a criatividade desse genial Mauro Lima", referindo-se ao diretor do filme.


45º Festival de Cinema de Gramado 2017 - 18/08/2017 - O maestro João Carlos Martins durante a exibição do filme "João, O Maestro". - Crédito Cleiton Thielle / Pressphoto

Pegando um pouco o "gancho" desta última frase, ao assistir ao longa se entende perfeitamente porque o maestro fez questão de frisar que o filme é "baseado" em sua vida. As poucas vezes em que o longa se afasta do tema central, que envolve a música, a obstinação e a superação, o personagem é retratado como um típico "vida loka", principalmente no que diz respeito à sua vida amorosa. Mas são apenas detalhes romanceados, que estão no filme mais para um alívio cômico ou um intervalo entre as tantas tragédias e dramas que fizeram parte de sua trajetória. Podemos também dizer que a música (principalmente a música clássica) é protagonista do filme, juntamente com os atores principais. O filme é 80% preenchido por trilhas sonoras ao piano ou por orquestras, podendo em certos momentos ser confundido com um documentário. Deixo claro que o filme não é um musical ou documentário, é "musicado". Impossível desassociar o maestro e sua obra. Para os amantes de uma boa música, são os momentos em que nos surpreendemos e nos emocionamos com a forma como João Carlos Martins consegue se superar e se entregar, e ao mesmo tempo paramos e simplesmente nos deixamos absorver pela harmonia tão bem executada.

Alexandre Nero, Rodrigo Pandolfo e Davi Campolongo vivem o pianista em fases distintas. O elenco também traz Aline Moraes e Fernanda Nobre como as mulheres do maestro, e Caco Ciocler como o professor de piano que auxilia João em sua carreira. O garoto Davi apresenta muito bem o menino que desde cedo se dedicou aos estudos de música, relegando sua infância e adolescência ao segundo plano. Sendo sempre acompanhado pelo pai, mostra que não apenas o seu talento era nato, mas também a sua obsessão pela música e mania de perfeição. Pandolfo, espetacular, é responsável por dar vida ao protagonista durante o auge de sua carreira como pianista e durante as tragédias que aconteciam em sua vida, que iam lhe impondo seguidamente restrições à sua carreira e ao seu dom artístico. Coube a Nero, não menos brilhante, o menor tempo em cena, mas ao terceiro ato, quando João Carlos se reinventa mais uma vez e assume a sua posição de Maestro.


45º Festival de Cinema de Gramado 2017 - 18/08/2017 Equipe do filme "João, O Maestro" - Crédito Diego Vara / Pressphoto

Nada mais justo e honroso fazer um filme dramático/biográfico/musical com este personagem da nossa história musical. Precisamos aprender a reconhecer, aplaudir e prestigiar estas pessoas que tanto contribuíram com nossa cultura e que são exemplos de vida enquanto estas estão vivas, para que possam, não somente ter a oportunidade de conferir esta homenagem, mas também ajudar a contar a sua história. Em nosso atual momento de crise, precisamos de histórias de vida e inspiração. Mas também precisamos entender que todos somos seres humanos, com nossas falhas, problemas, escolhas, características próprias, que nos diferenciam uns dos outros. Não estamos falando de reverenciar a pessoa, mas sim o seu talento, sua força de vontade e a forma como superar os desafios.

Coube a Nero o momento que foi para mim o mais impactante. A primeira vez em que o Maestro regeu uma Orquestra Sinfônica/Filarmônica. Uma cena de entrega, de emoção, que fez toda a plateia presente na sessão esquecer que estávamos assistindo a um filme. Parecia mesmo um teatro, uma orquestra ao vivo. Ao final da cena, subitamente veio a vontade e a necessidade de aplaudir de pé o que havia acabado de ver e ouvir. E foi então que voltei à realidade e percebi que aquilo era um filme, e que o filme ainda não havia terminado. Ainda haveria o bônus de ver cenas reais do próprio João Carlos Martins nos brindando com mais um pouco de música. E terminei de assistir ao longa feliz por ver mais um exemplo de uma junção de características: talento, música, atuações, paixão, arte.

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