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Crítica: Introdução à música do sangue


Em parceria com www.setdecinema.com.br

No interior do Brasil, entre o mundo arcaico e o contemporâneo, uma família vive suas angústias numa atmosfera de desejo e repressão. Baseado num argumento de um mestre do romance de introspecção psicológica, o escritor Lucio Cardoso.

Pode-se dizer que "Introdução à música do sangue" segue um estilo "filme de arte", que não estamos acostumados a ver por aqui, quanto mais em produções nacionais. Um filme sensorial, que procura fazer do espectador parte do ambiente em que a história se passa. Os primeiros minutos do filme são apenas cenas do cotidiano dos personagens, acompanhados apenas do som ambiente. Demora uns 5 minutos até ouvirmos o primeiro diálogo, e mais um bom tempo para tocar a primeira trilha sonora, 90% das vezes composta por músicas instrumentais (temas de Tom Jobim). Mas, se em vários momentos valoriza-se o silêncio ou apenas o som da natureza, também existe o outro extremo, ao ponto de ouvirmos uma música inteira durante uma única cena.

O diretor Luiz Carlos Lacerda, talvez para prover essa ambientação do público, ou para caracterizar mais os personagens, ou mesmo porque pensou ser a melhor forma de contar sua história, imprimiu um ritmo muito lento, com longas tomadas. Esse talvez seja o principal problema do filme para algumas pessoas. Cada cena permanece na tela por vários segundos. Demora muito para cada nova informação aparecer. Se por um lado é interessante para estimular mais a curiosidade sobre a vida dos personagens, principalmente a da jovem, por outro o longa torna-se cansativo. 

A trama gira em torno de 4 personagens. Um casal (Ney Latorraca e Bete Mendes) vive em uma comunidade rural no interior de Minas Gerais, junto com a jovem Maria Isabel (Greta Antoine), que pouco sabe sobre seu passado. A família vive de maneira simples, em uma casa sem energia elétrica. O senhor, Uriel, ganha seu sustento vendendo as verduras que cultiva, e a senhora, Ernestina, consertando roupas em uma velha máquina de costura. Enquanto ela sonha com uma vida melhor, com a energia elétrica e uma máquina de costura moderna, ele não quer saber de progresso, mantendo-se fechado, recluso, com comportamento anti-social. A jovem, também de pouco acesso ao mundo moderno e à convivência com outras pessoas, começa a se descobrir sexualmente e a despertar novos desejos e sensações após conhecer um peão de uma fazenda vizinha (Armando Babaioff), que acaba fazendo visitas constantes ao local. Esta mudança de comportamento de Isabel, juntamente com a possibilidade da chegada da energia elétrica, começam a incomodar o chefe da família. Saber identificar o comportamento e as característica de cada um dos quatro personagens principais é muito importante para compreender o seu final.

Em um longa com dois atores consagrados e muito experientes, o ponto forte do filme é a bela estreante nos cinemas Greta Antoine. Uma mistura de Débora Falabella com Bianca Comparato, a jovem consegue transmitir inocência e sensualidade, mesmo em cenas exageradas ou desnecessárias. Espero que siga uma boa carreira artística, pois tem talento e potencial.


Mesmo preferindo que o final do filme tivesse sido diferente, penso que se fez necessário CASO eu tenha compreendido a mensagem corretamente. Os aplausos tímidos ao fim da exibição mostram que o filme foi recebido de formas distintas. Infelizmente não tenho bagagem histórica e poética para conseguir fazer uma ligação maior do título com o filme ou sobre a poesia literária do roteiro, Mas quando as pessoas elaboram opiniões diferentes sobre o contexto da história, significa que o filme ou é propositadamente reflexivo e introspectivo, que faz você pensar sobre o sentido de algumas cenas (embora algumas ao meu ver foram completamente banais e descartáveis) e montar o quebra-cabeça, ou então a mensagem não foi transmitida de maneira suficientemente clara. 

Me permitem (de novo) a expressão da minha opinião? Óbvio que significa spoiler do filme. Então se você é daqueles que não gostam de saber informações, obrigado por ler até aqui. Se já assistiu ou não vê problemas nisso, vamos lá... Como disse, pode ser que o recado tenha sido exatamente esse mesmo e não sei por que alguém pensaria diferente. Mas o filme à vezes fica tão arrastado que pode fazer alguém perder o interesse ou deixar passar batido partes importantes da história achando que se tratava apenas de outra cena do cotidiano. Na minha opinião, tudo o que acontece é para construir o personagem de Uriel. Nós vemos Isabel por vários segundos fazendo tarefas simples como estender uma roupa ou brincar em um balanço, se afeiçoando a ela. Uriel a vê durante muito mais tempo. Ele não quer progresso, não quer energia, não quer um emprego, não quer se mudar para uma cidade maior, não quer encontrar Isabel longe dos olhares de Ernestina porque sabe de sua condição de psicopata, com forte desejos sexuais reprimidos, e sua melhor forma de conseguir suprimir toda a violência ou loucura prestes a explodir é vivendo uma vida longe de tudo, metódica, simples, humilde. Mas, mesmo sendo Isabel quem era, o ímpeto acaba se tornando impossível de segurar ao surgir uma oportunidade.

* O setdecinema conferiu a exibição do longa no 43º Festival de Cinema de Gramado. 

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