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Crítica: o vendedor de passados

O Vendedor de Passados (2015). 82 minutos. Adaptação do livro homônimo do escritor angolano José Eduardo Agualusa. A história central gira em torno de Vicente (Lázaro Ramos), um cara que se tornou especialista em criar novos passados para as pessoas. Usando programas de edição de vídeos e imagens e buscando em brechós e lojas de antiguidades objetos e itens antigos, aliado a sua mente criativa, é capaz de montar um novo passado de uma maneira convincente para seus clientes, insatisfeitos com a vida que tiveram até então e que gostariam de poder contar outra história para seus amigos ou colegas, sem o risco de serem desmascarados ou descobertos. Até que um dia uma cliente misteriosa aparece querendo um passado completamente novo, incluindo seu nome. Mas as consequências do que a mulher, rebatizada como Clara (Alinne Morais) faz com seu novo passado podem levar a grandes questionamentos.

Em um passado já não tão remoto assim, a palavra de um homem não era apenas importante, mas suficiente para dar veracidade a qualquer fato ou informação. O termo "homem de palavra" hoje já caiu em completo esquecimento. Com o passar dos anos, à medida que aumenta o nível de desconfiança e desonestidade de algumas pessoas, por muita vezes ao ouvir alguma história ou algum fato, era comum que a primeira réplica fosse: "prove!". Hoje, com a globalização, a tecnologia disponível e ao alcance de todos, um pouquinho de talento e criatividade e uma boa dose de cara-de-pau, é possível você inventar qualquer história e forjar todas as provas possíveis para que uma mentira ou uma farsa se torne uma "verdade".

Essa é a premissa d'O vendedor de passados. Não é bem uma questão de crítica social, mas de um fato da nossa realidade. São poucas as pessoas hoje que convivem exclusivamente com outras que sejam de famílias conhecidas, do mesmo local ou ambiente social. Aquele conceito de cidade pequena em que todo mundo se conhece está ficando apenas na lembrança da nossa geração anterior. Ao ser apresentado a um então desconhecido, o famoso "você é filho de quem?" não tem mais o mesmo efeito e o mais provável é que a resposta dada não acrescente em nada o seu nível de conhecimento sobre tal pessoa.

Partindo desse princípio, a não ser que você seja um péssimo mentiroso, tudo o que você disser sobre você poderá ser levado como verdade, até que ou enquanto não se prove o contrário. Ainda mais se você apresenta currículo, diplomas, fotos, vídeos, testemunhas. OK, mas se nada disso for verdadeiro, qual o sentido de você "perder tempo" montando, editando, criando e falsificando todos os documentos e informações sobre um passado não existente? As motivações são muitas: Superar antigas frustrações, conseguir um cargo melhor, conquistar pessoas, manter as aparências. É possível escrever um ensaio ou mesmo uma tese sobre esse tema, ligado a diversas críticas sociais ou análise do comportamento humano.  

Lázaro Ramos e Alinne Morais estão muito bem em cena, com boas interpretações e com talento suficiente para dar veracidade aos seus personagens. Ao meu ver, o diretor Lula Buarque de Hollanda e demais produtores preferiram não correr riscos de se aprofundar ainda mais nas questões filosóficas e psicológicas deste tema, o que poderia gerar um filme complexo demais. Desse modo, trabalham um  roteiro que simplifica um pouco as coisas e escolhendo se focar durante a maior parte do tempo em apenas uma dessas versões, em uma mistura de drama e suspense que provoca alguns questionamentos em específico e deixa que as maiores críticas e reflexões sejam feitas por você mesmo. Um filme que provoca mais e gera mais curiosidade e questionamentos do que entrega em tela.

 É preciso prestar bastante atenção ao filme, pois a qualquer momento uma mentira pode se tornar verdade ou vice-versa. Algumas cenas são interessantes. Em certo ponto, vemos um jantar no qual algumas pessoas conversam em torno da mesa, todos contando histórias sobre si ou sobre outros. Nesta altura, os que estão assistindo o filme possivelmente estarão pensando como eu: é bem possível que todos ali estejam mentindo. Para ser divertido, parecer legal ou inteligente, para que as pessoas se compadeçam do seu sofrimento ou de sua história de vida, ou mesmo apenas para ter o que conversar, hoje em dia realmente, a não ser que tenhamos sido testemunhas da história, cabe somente a nós acreditar que o que nos foi dito é verdade ou não. Devemos mesmo acreditar em tudo que nos dizem? Devemos realmente ficar completamente desconfiados de tudo e de todos e nos preocupar com isso? A sociedade está cada vez mais se tornando uma invenção de si mesma ou uma mentira que contada tantas vezes se torna uma verdade? Será que fui eu mesmo que escrevi essa crítica??? 

1 comentários:

  1. Gostei muito do filme, porém na parte que ele descobre que ela lança um livro; acredito que seria bem mais interessante ele brigar pelos direitos autorais da obra e o pai do Vicente ser o médico... Porém gostei muito porque gosta desses filmes que te deixam na dúvida, um que segue o estilo parecido é Menos Que Nada, recomendo também.

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