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Crítica: Faroeste Caboclo


Não me lembro bem quando ouvi uma música da Legião Urbana pela primeira vez, provavelmente eu devia ter menos de 10 anos. Mas tenho certeza da data e local de quando comprei meu primeiro CD da banda (ainda tenho todos bem guardados). Era um disco só com uma foto da banda na capa, sem nenhuma palavra, e apenas no verso tinha o nome do disco: "Que país é este?". Gostei de todas as 9 músicas, mas a faixa 7 sempre teve minha atenção especial por ser diferente. Mais de 9 minutos de músicas, sem nenhum refrão, como se fosse uma história cantada. Tudo bem que vivíamos numa época de Cazuza, Nasi, Arnaldo Antunes e Renato Russo, e desse pessoal sempre se esperava algo conteúdo, poesia, qualidade, mais do que letras compostas apenas por poucas sílabas sem sentido e demais onomatopéias. Mas Faroeste Caboclo era mesmo diferente...


Faroeste Caboclo sempre foi uma música marcante, para mim e toda uma geração. Que, assim como ao ler um bom livro, imaginava sua própria versão  "física e real" ao vivo e pensava que legal seria se isso virasse um filme... e esse dia chegou em 2013 pelas mãos do diretor estreante Renê Sampaio, que assim como tantos outros ao ouvir a música pela primeira vez quis ver a obra como um filme. A diferença é que ele foi lá e fez.

Como então contar uma história que todo mundo conhece não apenas o final, mas todo o seu conteúdo? A solução foi algo inteligente, corajoso, mas polêmico: realizar um filme BASEADO na história da música. O resultado muitos vão gostar e muitos outros vão odiar. Felizmente, me enquadrei na primeira categoria, mas lembrando que já entrei no cinema sabendo que não ia assistir um videoclipe estendido e nem uma versão 100% fiel à obra original. Isso deve ter contribuído para apreciar melhor o resultado.



Algumas partes da música foram modificadas, outras excluídas completamente, e algumas pontas soltas foram muito bem amarradas. Particularmente, imaginava algumas situações possíveis para que Maria Lúcia se casasse com Jeremias e tivesse um filho dele, mas encontraram uma solução muito plausível - e que não era nenhum das que eu imaginava. O primeiro encontro de João de Santo Cristo e Maria Lúcia também é aceitável, embora já não em uma situação muito comum. Já a relação de amor entre os dois ficou com um quê de síndrome de Estocolmo. O fato é que o filme explora muito bem a relação de amor entre os protagonistas, como um Romeu e Julieta nacional, e inserindo outros bons elementos na trama como o policial corrupto (vivido por Antônio Calloni) e o pai senador de Maria Lúcia (o ator e diretor Marcos Paulo, em seu último papel antes de falecer), o que explica a sua boa vida e ao mesmo tempo sua sensação de vazio, o que a leva ao seu círculo de amizades e envolvimento com drogas.



Sobre o trio de protagonistas, temos outro ponto forte do filme. Fabrício Boliveira (é com B mesmo) encarnou muito bem o personagem João, Ísis Valverde é a menina linda que se precisava para o rosto de Maria Lúcia - li algumas criticas sobre sua atuação e não concordo, acho que ela está muito bem, e Felipe Abib deu o ar correto de playboy exagerado para o traficante Jeremias. Outro "personagem" muito bem retratado na trama é a própria Brasília, já que o Planalto Central, as cidades satélites, asa norte e asa sul, o surgimento das bandas de Rock e o estilo de vida dos jovens nos anos 80 contribuíram fortemente para que a música existisse (e, sim, as luzes de Natal estão lá).

Se me permitem alguns SPOILERS invertidos (pois vou contar o que não aparece no filme), entre as partes cortadas achei coerente não aparecer nenhum boiadeiro dando uma passagem para João, assim como suas brincadeiras de médico quando criança (a censura provavelmente iria cair em cima) e o seu duelo final não ter aparecido ao vivo na TV, embora tenha acontecido Ceilândia em frente ao lote 14, mas nesse caso fizeram algumas alterações que não precisavam. Também senti falta do general de cinco estrelas e do senso de heroísmo de João que era o verdadeiro motivo de sua viagem (pelo perfil de João que foi montado no filme ele não estava ligando muito para toda essa gente). Mas eu fiquei muito feliz em contar cada um dos 5 tiros que Santo Cristo deu no bandido traidor com sua winchester 22.

O filme (com uma única exceção) não usa frases da música no diálogo dos personagens. Portanto, não espere que João no seu duelo final resolva conversar com Jeremias. Ele vai direto aos fatos. Se por um lado é um pouco decepcionante esperar pelas famosas frases de efeito e elas não aparecerem, por outro esse mesmo recurso foi algo que me incomodou profundamente em Somos tão jovens, que ficou extremamente forçado.

Enfim, Renê Sampaio sabia que estava mexendo em vespeiro. Entre a decisão de simplesmente "filmar a música" e ouvir críticas dizendo não ter nada de novo ou fazer uma obra original e diferente e ouvir críticas dizendo ter alterado a essência da música, ele escolheu a segunda opção. O que eu assisti foi um filme ao estilo western spaguetti de Tarantino, ao mesmo tempo com um forte drama social jogado na nossa cara (a música é de 1979, e pouca coisa mudou...), e uma bonita história de amor que ignora preconceito, classe ou cor. Com uma história coesa, ágil, adulta (no clássico estilo sexo, drogas e rock'n'roll) e bem contada. E ao final ainda poder ouvir por completo a obra musical durante os créditos, cantando junto todos os 168 versos, fazendo aquele exercício mental de associar com o que tinha sido visto ou lamentar o que ficou faltando, mas acima de tudo saí do cinema feliz porque agora eu tinha duas formas diferentes de me lembrar de Faroeste Caboclo, da geração coca-cola, dos anos 80, de um tempo bom que infelizmente não volta mais...

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