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Crítica: O Palhaço

Os palhaços Pangaré / Benjamim (Selton Mello) e Puro Sangue / Valdemar (Paulo José) rodam as estradas do interior com a trupe do Circo Esperança. O palhaço Benjamin, porém, está em crise. Acha que perdeu a graça.

Não se pode negar que O Palhaço é um filme tecnicamente muito bem feito e com bastante complexidade em seu roteiro. Nesse sentido, até compreendo porque este filme foi o escolhido para representar o Brasil para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2012 (ficou pelo caminhos nos cortes de pré-seleção da Academia). Apesar de seus quesitos técnicos e de ser mais um longa digno de elogios por não explorar nenhum recurso apelativo (o filme não contém palavrões, nudez, sexo e piadas escatológicas), na minha opinião não é o filme nacional mais emocionante ou mais "legal de assistir" em 2012. Respeitando a opinião de cada um, acho que À beira do caminho ou Xingu teriam sido concorrentes mais fortes.

O filme intercala bons momentos, quase todos envolvendo o elenco de atores coadjuvantes do circo e o relacionamento entre pai e filho (novamente o talento e experiência de Paulo José emocionam), com passagens lentas e arrastadas, quase todos focados no personagem principal. Até aceito que essa lentidão seja necessária para marcar os problemas pessoais do personagem principal, mas esse tom melancólico deixou o filme cansativo por alguns momentos. O gênero do filme é drama, então quem quiser ver o filme para rir com as cenas do circo e interação entre os palhaços vai ver poucas cenas assim, e isso é até óbvio porque o tema do filme é outro, o circo é só o cenário para o desenvolvimento do personagem, mas sempre é bom avisar. Só que no final as poucas cenas do circo acabam sendo as melhores do filme e você fica com vontade de que tivessem sido feitas mais cenas de comédia e menos closes no Selton Mello e exploração de ventiladores. Esse pra mim foi o maior problema do filme, com exceção da boa sequência final e de quando Benjamim realmente compreende o sentido de sua vida - em uma cena sutil e muito bem feita, o tema principal agradou menos que as cenas de apoio.


Em primeiro lugar, acho que o tema palhaço triste já foi bem explorado em filmes, séries, músicas, teatros, etc. Na verdade, vou me surpreender se um dia fizerem um filme sobre um palhaço que é feliz fora do circo. O longa até tenta explorar uma visão um pouco maior do que o personagem principal Benjamim ser simplesmente triste com sua profissão. O palhaço é muito bom no que ele faz, mas ele não tem certeza se é isso que ele deveria realmente fazer. E a constante lembrança de que ele não possui identidade, cpf e comprovante de residência, mas apenas sua certidão de nascimento nos transmite sua angústia de que ele não possui uma identidade própria, não sabe realmente qual o seu lugar no mundo e ainda não encontrou qual o sentido de sua vida. "O gato bebe leite, o rato come queijo..." E ele? O que ele deve fazer?

Acho que ainda não adquiri cultura filosófica suficiente para compreender toda a complexidade por trás da obsessão de Benjamim por um ventilador. Foi apenas por que logo na primeira frase do filme uma colega de trabalho diz que está calor e ele deveria comprar um ventilador? Tentando filosofar, arrisco que "Benja", por ter uma vida tão simples, comum, sempre da mesma forma, fazendo as mesmas coisas com as mesmas pessoas, que por qualquer evento, comentário ou contato com uma pessoa fora de seu círculo habitual de convívio ou profissão o faça adquirir um novo momentâneo sentido para sua vida. Isso também pode ser sentido quando ele conhece uma moça logo no primeiro espetáculo exibido no filme. Mas não sei se era essa a mensagem que o filme queria transmitir... só sei que foi assim...


 Como já citado, os coadjuvantes garantem os melhores momentos do filme (além das cenas com Paulo José). Nenhuma história é aprofundada como a do personagem principal (nem teria como), mas fazem com que não só tenhamos os alívios cômicos no meio de todo o drama pessoal do palhaço, como também mostra a difícil vida dos atores de circos mambembes (o filme se passa nos anos 70 mas imagino que essa forma de vida continua assim ou ficou ainda mais difícil até os dias atuais) , que mesmo com todas as dificuldades eles amam o que fazem. O filme explora muito bem o relacionamento entre os personagens como realmente uma família e a paixão e devoção de cada um pelo circo, sendo não apenas músicos, mágicos ou palhaços, mas também responsáveis por todo o funcionamento do circo, montagem, som, iluminação e até a venda de comidas. Isso sempre em pequenos municípios do país com plateias reduzidas, em um ótimo exemplar road movie.

O elenco é muito bom. A trupe do circo é formada por atores iniciantes ou pouco conhecidos do público em geral. Além de Selton Mello e Paulo José, atuam Giselle Motta, Álamo Facó, Cadu Fávero, Erom Cordeiro, Hossen Minussi, Maíra Chasseraux, Thogun, Bruna Chiaradia, Renato Macedo e Tony Tonelada (como Meio Kg). Também temos as famosas participações especiais de atores globais e comediantes como Fabiana Karla, Jackson Antunes, Tonico Pereira, Moacyr Franco, Teuda Bara, Danton Mello e até do Ferrugem (se você tem mais de 30 você o conhece) e Jorge Loredo (O Zé Bonitinho sem sua famosa fantasia). 


Mas deixei um nome de fora para um destaque especial. Logo no início falei que o tema palhaço já é batido. Seria um crime fazer qualquer comparação com o maior palhaço do cinema Charles Chaplin, mas não pude deixar de lembrar de um determinado filme de Carlitos: "O Garoto". Isso porque uma linda garotinha chamada Larissa Manoela no papel de Guilhermina deixa claro a alma do circo e a emoção de fazer parte dessa cultura. O filme é dela.

1 comentários:

  1. Ótima crítica.

    Como havia falado no twitter, não tinha visto muita graça no filme mas, após ler aqui, percebi que se trata de um drama e não uma comédia.

    Outra questão também ficou por conta do ventilador. Fica no imaginário para as deduções. Rs!

    Parabéns pelo post.

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